QUALQUER COINCIDÊNCIA COM A REALIDADE, É MERA SEMELHANÇA


Brasília, 31 de agosto de 2017
Luiz Fenelon


Alguém já sofreu de furacão de ideias. Na verdade, não são ideias... as palavras não significam nada ou significam muito mais do que pensamos. Neve, para mim, é aquele gelo branco dos cartões postais ou a matéria prima para fazer bolas e jogar nos outros por brincadeira, como aparecem nos filmes de fim de ano. Dizem que os esquimós, no entanto, têm dezenas de palavras para designar cada tipo de neve.
Vocês já imaginaram um esquimó descrevendo a neve para um árabe. Seria coisa de outro mundo. Exigiria uma capacidade enorme de fantasiar, provocando emoções para construir a imagem de algo que o ouvinte provavelmente nunca veria. Assim, a dificuldade em escrever, muitas vezes não está na falta de imaginação ou assunto. É assim que eu sinto. A dificuldade está no excesso, no turbilhão de pensamentos, ideias ou sensações que me atormentam.
Chiii... ! Que diria minha terapeuta, se eu tivesse uma? Será uma síndrome de Van Gogh, sem que exista nenhuma genialidade. Van Gogh padecia de uma percepção da realidade tão intensa, que só encontrou forma de expressá-la pintando. Ele não tinha sensibilidade para as cores... ele tinha uma sensibilidade exagerada para a vida e a única forma que encontrou para expressá-la foi na pintura. Expressou o máximo que pode, mas não foi suficiente. Seu cérebro fervente não aguentou. Funcionando a 500 volts, logo entrou em curto circuito. Cúmulo da ironia, ele, que só vendeu um único quadro, comprado por seu irmão, hoje tem suas obras valoradas em milhões de euros e reconhecimento universal.
Vocês já entraram em um quadro de Van Gogh? Pois é, os quadros dele não são para serem vistos como quadros. São para serem vividos. Fique de frente a um deles e deixe-se levar. Quem não viveu em um quartinho como aquele quarto luminoso e quente, com cadeirinhas de palha, cama de madeira e paredes azuis? E entre e tenha essa experiência.
E o Café com noite estrelada. Cuidado para não tropeçar nas pedras do calçamento. O brilho das estrelas contrasta com o azul escuro do céu. O Café, com luminosidade própria, clareia a paisagem. Imaginem que seria de Van Gogh se, ao contrário de expressar-se através da pintura, ele decidisse escrever. Seguramente as dificuldades seriam infinitamente maiores. Devem existir escritores com esta genialidade. Não ouso citar nenhum, não me sinto capaz de comparar genialidades, ainda mais com formas de expressões tão distintas.
Hoje, quando comecei a escrever este texto, queria simplesmente dar vazão à minha percepção da realidade que vivemos. No entanto, é uma realidade tão intensa, tão cheia de “inputs” (que é isso?) que me deixa tonto e incapaz de apurar o foco. Talvez eu pudesse falar sobre o aniversário da consumação do GOLPE, da manifestação do Fachin, no STF, sobre o pedido de anulação do impeachment, do arrependimento dos aprendizes de feiticeiros, da “venda” da Eletrobrás, da extinção da reserva do cobre na Amazônia ou de como estão acabando com o Brasil.
Mas que significam estes fatos pontuais diante a massa de acontecimentos que hoje atormentam a vida dos brasileiros e desabam sobre nossas cabeças. Como resistir a algo pontual, quando essa avalanche de escombros e água vem sobre nós e não há para onde sair.

Imagino que não me encontro só com essas sensações.

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