A MANADA
Brasília, 15 de outubro de 2017
Luiz Fenelon

Acompanhando as notícias da semana, lembrei-me de um fato ocorrido exatamente há 25 anos, no interior do México. Vivia eu em Guadalajara e havia conhecido um pequeno produtor rural, técnico agropecuário, que produzia mel. Meu interesse estava em conhecer apicultura e posteriormente trabalhar com mel. Anteriormente eu havia feito um curso especial sobre apicultura. Sempre fui fascinado pelas atividades das abelhas e as propriedades do mel. Mas não é isso que interessa aqui... este rapaz, convidou-me a conhecer sua pequena propriedade em uma cidadezinha no interior de Jalisco, um estado do México.  O povoado ficava a algumas horas de Guadalajara. Aceitei o convite e em um domingo, fomos de carro, minha família e eu. Éramos, minha esposa, minha filha mais velha de 9 anos, a do meio, de quase 3 e a caçula, de menos de 2. Foi uma viagem tranquila em estradinhas rodeadas de campos verdes, coisa não tanto comum no norte do México. Com as indicações dadas, chegamos à fazendinha de nosso amigo.

Haviam duas casas simples, de alvenaria e laje. Uma onde vivia a família do amigo e outra de seus pais. Entre as duas, à esquerda um pasto onde ficava o gado. Deviam ser umas trinta cabeças, e à direita um pátio onde ficavam os veículos, implementos agrícolas e um curral.

Passamos um dia tranquilo, visitamos o povoado, conhecemos a propriedade, os apiários e como se processava o mel. Almoçamos com as duas famílias reunidas. A minha e a dele, esposas e filhos.

À tarde, quase anoitecendo, o amigo pediu licença para atender a um pessoal que chegava em uma caminhonete. Era um veículo com caçamba alta, própria para transportar gado. Ele tinha vendido uma novilha e o comprador vinha buscar para levar ao matadouro.
Fomos à beira do curral, presenciar o embarque da vaca. Lembro como minha filha, a de 3 anos, olhava com atenção as vacas que eram ajuntadas perto da cerca. Era visível o nervosismo do gado.

O pessoal, com habilidade, logo separou a novilha que, laçada, era puxada para a carroceria da caminhonete. O incrível é que as vacas se aproximaram da cerca e, muito próximas à minha filha, do outro lado, começaram a mugir em um coro doloroso e nostálgico. Parecia que, mais que protestar, elas lamentavam a sorte da vaquinha.
A cena da boiada queixando-se, a vaquinha na camionete e minha filha assistindo, ficou gravada em minha memória. Até hoje sinto a sensação de angústia ao recordar.

Não sei interpretar o que realmente aconteceu, mas não tenho dúvida que a boiada manifestava uma sensação de profunda tristeza e, talvez, de solidariedade e impotência. Parecia existir um a consciência do destino da companheira.


Pois é, os dias atuais me fazem lembrar daquelas vaquinhas.

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