PARA ONDE VAMOS?
Brasília, 28 de outubro
de 2017
Luiz Fenelon
Sempre fui fascinado pela
narrativa histórica que mostra o mundo desenvolvendo-se de uma forma integrada.
Uma visão que não vê os acontecimentos isolados, mas como um processo onde as
partes, por mais especificidades que tenham, obedecem a uma tendência conjunta,
resistindo ou adaptando-se.
Essa abordagem possibilita
entender a “descoberta” da América e o surgimento do Brasil, integrado a uma
nova alternativa ao processo de expansão do mercantilismo europeu, o que sentou
as bases para talvez um dos mais importantes fatores de acumulação primitiva de
capital, raiz do capitalismo atual, de caráter global.
Visto assim, mesmo o
capitalismo embrionário daquela época teve sua origem em um movimento
incipiente de globalização. O engenho a produção e a comercialização do açúcar,
assim como a escravidão, não podem ser explicados por si, mas por uma dinâmica
geral de desenvolvimento histórico, onde todas as partes estão integradas ao
todo. A redução do indígena ao trabalho forçado, sua resistência e massacres, só
podem ser entendidos a partir da necessidade da produção, que demandava mão de
obra para produzir as ”commodities” necessárias para financiar a
aventura colonial. Certamente o índio que era caçado pelas bandeiras não tinha
uma visão global do que lhe acontecia, nem mesmo o europeu ou mestiço, capataz
que se dedicava, para sobreviver, a esta atividade subsidiária ao funcionamento
do engenho (a escravidão indígena). Eles não compreendiam como estavam ligados
e dependentes deste comércio global. Fracassada a escravidão local, a
alternativa à mão de obra negra estimulou outra nefasta atividade de comércio
internacional, o tráfico de escravos.
Alguém na época se preocupou com
o destino dos seres humanos escravizados? Há exemplos de visionários sim, que
defenderam os escravos e lutaram pela dignidade do ser humano. No entanto,
talvez nem mesmo estes vanguardistas tiveram a noção de como o escravo era a
consequência de uma engrenagem objetiva e perversa do desenvolvimento econômico
e social.
Falo tudo isso, para dar um salto
ao que vivemos hoje, não só no Brasil, como no mundo inteiro. Hoje não é nada
diferente. Seria ótimo que esta visão, da qual aponto estes aspectos, pudesse
ser construída tecendo pontas, desde o desenvolvimento inicial do
mercantilismo, surgimento e desenvolvimento do capitalismo, revolução
industrial, do capitalismo do século XX e das duas grandes guerras, do
pós-guerra e a guerra fria, consolidação da hegemonia norte-americana, domínio
do capital financeiro, globalização, crise do petróleo e expansão digital,
crise do século XXI, conflitos regionalizados, etc.
Seguramente a ditadura militar no
Brasil não esteve isolada disto. Tenho certeza que ela foi a *“vanguarda””
(não há nenhum sentido positivo nesta expressão) de uma época de epidemias
ditatoriais na América Latina, cumprindo um papel na acumulação de capital que não
está totalmente claro.
Hoje, como naquela época e em
várias outras, o Brasil esteja desempenhando, com a imposição do modelo
social/político/econômico do Golpe, um novo papel de *“vanguarda” do mal.
Aclaremos; O Brasil foi “vanguarda” na acumulação de capital
na colônia, através da commoditie do açúcar. Não se limitou à extração do ouro
ou prata. O Brasil foi “vanguarda” no genocídio indígena
através da escravidão e ocupação territorial. Foi “vanguarda” no
desenvolvimento da escravidão negra, transformada em um negócio mundial, com
apoio das potencias na época. São afirmações duras, feitas de forma simplista,
mas facilmente comprovadas.
Desde os anos 90 que o mundo entrou em outra
etapa de reordenação capitalista. As guerras pelo petróleo deixaram claro a
superioridade e o poderio militar norte-americano. Serviram, de fatores
dinamizadores do capital em expansão de forma global. Os mercados se
reorganizaram regionalmente em grandes blocos e, com maior liberdade comercial,
passaram a competir entre si. Azeitando e tornando todo este processo mais
veloz, o capital financeiro flui livremente em todo mundo, buscando mercados
onde maximizar sua rentabilidade.
Contraditoriamente, a expansão
capitalista livre até de suas características nacionais e em busca de maiores
lucros, procura onde especular, onde aplicar seus investimento e tecnologia
onde a mão de obra é mais barata. A China foi a grande beneficiaria deste
processo. Cresceu de forma exponencial e em parte, sustentou este boom capitalista.
Agora ela pressiona o mercado global com seus produtos competitivos. Sua
concorrência limita as possibilidades de investimentos altamente rentáveis nos
países antes denominados de primeiro mundo. O desemprego aumenta em todo parte
e as massas de refugiados invadem a Europa. Supostamente são refugiados de
guerras e do terrorismo (mas não se questiona o que produz as guerras e o
terrorismo).
Nessa conjuntura de incertezas, o
grande capital, atrás do qual existem consultores brilhantíssimos pagos regiamente,
confabula a forma de adaptar-se a estas mudanças ou como aproveitarem-se para
colocá-las a seus serviços.
Seguramente, assessores altamente
capacitados, ávidos por dinheiro e sem nenhum escrúpulo e sentido de humanidade,
recomendam aos donos do capital como maximizar seu lucros, aumentar a
produtividade e otimizar seus investimentos. São palavras bonitas para dizer
como arrancar, apropriar-se das riquezas dos povos mesmo através de fomentar o
caos, guerras localizadas e regionais e até genocídios.
Com toda a certeza, fazem um
levantamento global das riquezas mundiais e decidem com atacá-las, buscando
formas de expropriá-las de seus verdadeiros donos. Na verdade, isso já vem
sendo feito há muito tempo. No entanto hoje se radicaliza e as fronteiras
nacionais apresentam-se como um entrave à expansão destes interesses. A
apropriação do petróleo é um exemplo claríssimo de como isto vem sendo feito.
Iraque, Líbia, Oriente Médio, Síria, África confirmam amplamente essa tese.
Podemos incluir México, Venezuela e agora o Brasil.
Só para mencionar, mas caberia
uma análise um pouco menos primária, também são sintomáticos os movimentos
separatistas na Europa. O Brexter no Reino Unido, a Catalunha na Espanha, os
movimentos na Itália, além de outros.
Quero destacar que, com o Golpe
no Brasil, tudo indica que estaremos novamente na “vanguarda” (triste ser este tipo de “vanguarda”)
de um processo de retrocessos do estado capitalista que tinha alguma
preocupação social, de reversão de conquistas e de implantação de um modelo
ultra neoliberal, onde o estado cumpre o papel fundamental e quase exclusivo de
desapropriar a população de todas suas riquezas e patrimônios, inclusive de sua
renda básica, para colocá-los a serviço do capital. Na verdade, é um processo
de desapropriação criminosa. É uma política de terra ocupada, por uma 5ª
coluna, que transforma tudo em botim de guerra.
O pior é que - chego a desconfiar
- se este processo levar nosso País a conflitos, isto está dentro do cálculo
dos estrategistas do capital.
Enquanto isto, estamos
preocupados com o nu do MASP, a novela das oito, o bate boca no STF e um montão
de coisa que nos distraem.
*vanguarda – o termo aqui é usado apenas no sentido de estar à frente de
um movimento e está desprovida de conotação positiva. No caso específico, tem o
sentido de estar à frente na implantação de um modelo econômico/político e
social que interessa aos detentores da riqueza mundial super concentrada.
Que legal! Fez um blog. Virou blogueiro. Rs. PARABÉNS
ResponderExcluirMuito interessante teu texto, companheiro Fenelon. Só discordo um pouco da hipótese de Brasil estar sendo uma vanguarda do mal... Só ver a realidade que está sendo imposta a países como Argentina, Venezuela...
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