CHOQUE NATALINO


(Diante da dureza da realidade, a primeira coisa que temos que fazer é 
projetar nossos sonhos e lutar para que se concretizem.)



Brasília, 24 de dezembro de 2017.
Luiz Fenelon

Hoje, dia 24 de dezembro, falta
Acordei pensando em escrever sobre isso e alertar que, além de necessário saber o que fazer para mudar a realidade imediata do País, é necessário fazer e concentrar todos os esforços nisso. Na tarefa principal, na pedra mestra, aquela que vai na essência do problema e garante a resolução do problema. Pedra mestra é aquela que colocada garante a segurança da construção. Ao mesmo tempo é aquela que retirada, derruba tudo.
apenas um mês para o julgamento de LULA.
Parece que os golpistas profissionais, aqueles que estão dirigindo e financiando este processo sabem disso e não dão ponto sem nó. A força deles, são os milhões de dólares que tiveram disponíveis para comprar mídias, opiniões, mentes e muitos e muitos mercenários. Criada uma torrente de opiniões, foi fácil arrastar incautos e patos por vocação. Pobres que querem sentir-se ricos de dinheiro há aos montões...
Como disse, eu pensava escrever sobre isso, com o objetivo de enfatizar que todo o esforço deve ser concentrado nas tarefas para o dia 24, não só em termos gerais, mas articulando de forma bem amarrada e concreta todas as forças que podem ser somadas.
No entanto o espírito natalino me contagiou.
Comecei a revisar o WhatsApp assim que acordei e não parei até agora. Vocês já viram como o espírito natalino é contagioso. Talvez seja tão contagioso por corresponder à profunda aspiração de toda a humanidade. Viver em paz, harmonia e com alegria. Será que é por corresponder a este desejo universal que o capitalismo se apropria dele? Ou pelo menos tenta.
No capitalismo tudo se confunde com mercadorias e a felicidade passa a ser o acúmulo. É uma inversão de valores.
Houve uma época em que fui mais pobre do que o normal. Vivia só e fiquei desempregado durante alguns meses. Acabei tendo de morar em uma pensão – tipo cortiço – no Tatuapé, bairro de São Paulo. A pensão, por si mesmo dava para escrever um verdadeiro “O CORTIÇO”. Espero um dia poder expandir minhas inspirações e escrever estas vivências. Tenho que usar os textos de Gorki, como motivação e não bloqueio diante de comparações tão desproporcionais. (Máximo Gorki foi um escritor russo, genial da época anterior á revolução, que escrevia sobre sua vida de “vagabundo” (trabalhador informal) andarilho.)
Voltando à pensão, ela tinha dois ambientes principais: uma parte, no piso superior, com quartos enormes, onde dormiam dezenas de pessoas (hoje acho que eram umas 15 no mínimo) no segundo andar, onde se chegava a partir de uma escadinha de madeira que subia de um pátio em forma de beco. Na parte da frente do beco se encontravam os sanitários, se é que assim podem ser chamados, divididos em uns 3 quartos de banho com chuveiros, outras tantas casinhas com os famosos bois (buracos no chão). Do lado de fora, tanques serviam para lavar as mãos, rostos e escovar os dentes.Eu morava em um quarto coletivo.
Não tenho ideia de quantos vivíamos ali. Seguramente éramos mais de cem pessoas. A vida era tranquila e havia um espírito comunitário. Muita conversa e de vez em quando um violão. Brigas não havia... era muito arriscado. Podiam terminar na peixeira, então era melhor não facilitar.
Briga feia que tive quando cheguei à pensão foi com as pulgas. Na primeira noite não me deixavam dormir. Resolvi matá-las e contar... estava cansado, pois só me lembro da décima nona... cai no sono...
No outro dia queixei-me com os companheiros de quarto. A voz geral foi de que a gente se acostuma; Não tive dúvidas, nesse mesmo dia comprei um quilo de BHC. De noite, ao deitar, pulverizei toda a cama e o chão ao redor. Meus colegas pediram emprestado o veneno e rapidamente o quarto ficou todo pulverizado... branquinho... parecia até neve... dormimos felizes e tranquilos. Pelo que sei, somente as pulgas morreram envenenadas. Seguramente alguns de nós ficaram com sequelas, mas não foi registrado.
Nos dias que ali vivi minha sorte mudou e encontrei um bom emprego como aprendiz de mecânico em uma multinacional. Além do salário, que era acima da média e já permitia pagar a pensão com certa folga, no Natal recebi da empresa um Panetone, um Peru assado e um garrafão de vinho Sangue de Boi. Eram tempos em que as empresas eram generosas com o lucro que proporcionávamos. Fiquei contentíssimo e, como fui dispensado mais cedo, cheguei logo na pensão, que estava quase vazia.
Carregado com tanta comida, logo dois amigos mais próximos se convidaram para comermos juntos. Fomos para o quarto de um deles, lá no bequinho. Era um quartinho 3 X 4, com a porta, uma janela ao lado, duas camas e um guarda-roupa na parede oposta a uma das camas.
Arrumamos nossa mesa natalina improvisada com uns tamboretes. Fechamos a porta e começamos a servir o vinho e partir o Peru. Nossa alegria era contagiante. Não demorou, apareceram outros dois moradores na janela e ficaram puxando conversa e olhando para dentro do quarto. Falavam de coisas corriqueiras, futebol, casos, etc... nenhum pediu nada. Mas as miradas diziam muito e tocaram nossas almas. Não sei se exatamente era fome ou carência mais profunda. Sem perguntar, arrancamos pedaços do Peru, cortamos o Panetone, servimos vinho e recebemos generosos sorrisos de agradecimentos e desejos de Feliz Natal como despedida.
Nem bem ficou vazia, a janela foi ocupada por outra dupla. A cena se repetiu assim várias vezes... até hoje não entendo como a comida rendeu tanto. Sei que fomos servindo e comendo e ao terminar estávamos todos satisfeitos.
Não sei se foi a melhor comida de Natal de minha vida... mas foi a mais emocionante.
Hoje as conversas no WhatsApp fizeram que a minha memória viajasse para aqueles tempos há quase meio século. Tempos duros, de muita luta e muita esperança, em que a solidariedade vivida foi natural, espontânea e muito, muito rica, deixando uma profunda recordação e saudade.

Comentários

  1. Quanta inspiração meu amigo. Nos remeteu a uma boa e reflexiva leitura, em pleno período natalício. Grata e, como não poderia deixar de ser, Feliz Natal!

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  2. Somos a soma das nossas experiências e como reagimos a isso, pelo caráter e pela formação. Vc teve a experiência de viver o NATAL na forma mais autêntica!!! Feliz Natal!!!

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