JESSÉ DE SOUZA
(importante entrevista de Jessé de Souza à Revista Cult sobre seu livro: A ELITE DO ATRASO)
É preciso explicar o Brasil desde o ano zero
Em A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato,
Jessé Souza quer fazer o que, em sua opinião, nenhum intelectual da esquerda
jamais fez: explicar o Brasil desde o
ano zero. Isso porque se ideias antigas nos legaram o tema da corrupção
como grande problema nacional – conforme defende no livro -, só mesmo novas
concepções sobre o país e seu povo poderiam explicar, de uma vez por todas, que
as raízes da desigualdade brasileira não estão na herança de um Estado
corrupto, mas na escravidão.
Para tanto, o sociólogo confronta uma das principais obras do
pensamento social brasileiro, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio
Buarque de Holanda – responsável por utilizar pela primeira vez a ideia de
patrimonialismo para definir a política nacional. Jessé compreende que o
conceito – segundo o qual o Estado brasileiro seria uma extensão do “homem
cordial” que não vê distinções entre público e privado – serve para legitimar
interesses econômicos de uma elite que manda no mercado, este sim a real fonte de corrupção e poder.
Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha)
e professor da UFABC, Jessé Souza é autor de 27 livros, incluindo A ralé brasileira: quem é e como vive(2009), A tolice da inteligência brasileira (2015) e A radiografia do golpe (2016).
Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2015 e
2016, coordenou pesquisas de amplitude nacional sobre classes e desigualdade
social. Em entrevista à CULT, o sociólogo critica a existência de uma
interpretação dominante sobre o Brasil e aponta os motivos pelos quais a sociedade brasileira em 2017 não passa de
uma continuidade da sociedade escravocrata de 500 anos atrás.
No livro você afirma que Sérgio
Buarque de Holanda inaugurou uma forma de pensar o brasileiro como negatividade
que se estende ao Estado, visão que teria influenciado de Raymundo Faoro a
Sergio Moro. Por que essa chave de leitura tem tanta força?
Essa ideia foi montada
para defender interesses econômicos. Às vezes me espanto como não se percebeu
isso antes. Quando a elite paulistana perde o poder político para Vargas em
1930 – e perde para um movimento de classe média, que estava se formando no
país naquela época -, ela começa a organizar um poder ideológico para
condicionar o poder político a atuar conforme as suas regras. Isso foi dito, articulado, pensado.
Esse pessoal já tinha fazendas de café, as grandes indústrias em São Paulo, já
tinha controle sobre a produção material e aí constroem as bases para o poder
simbólico – e a sociedade moderna vive desse poder simbólico. Essa elite cria a Universidade de São
Paulo, que vai formar professores de outras universidades e que vai produzir
conceitos importantes para que essa elite, tirando onda de que está fazendo o
bem, faça efetivamente todo mundo de imbecil para que seus interesses materiais
e políticos sejam preservados.
Que conceitos são esses?
São duas ideias que nos
fazem de imbecis. Uma delas é a do patrimonialismo,
em que há uma distorção da fonte do poder social real, como se o Estado
fosse montado para roubar, vampirizar e fazer o mal – e como se nada
acontecesse no mercado. Embora seja uma instância de poder importante, no capitalismo quem comanda o poder é o
mercado. Há
uma tradição inteira, 99 de 100 intelectuais até hoje professam esse tipo de
coisa. Sérgio Buarque inaugura [esse pensamento no Brasil], depois Raymundo
Faoro dá uma profundidade histórica e Fernando Henrique Cardoso transforma isso
em teoria; o programa político do PSDB é todo retirado de Raízes do Brasil. Mas também influenciou a esquerda. Sérgio Buarque
foi um dos fundadores do PT, fez todo mundo de imbecil, da direita à esquerda.
E como a esquerda não tem uma concepção
autônoma de como a sociedade funciona, de como o Estado funciona, ela chega ao poder com um plano econômico
alternativo, mais inclusivo, e acha que as pessoas por alguma mágica vão
perceber que aquilo é bom pra elas. A
esquerda nunca fez o que a direita e a elite fizeram.
Por que a esquerda nunca articulou
uma narrativa contrária a essa?
Porque foi incapaz.
Porque não foi inteligente, porque se deixou imbecilizar. Porque o tema do patrimonialismo é tratado como crítica
social: “Olha, estamos descobrindo quais são as mazelas brasileiras, um
gene da corrupção de 800 anos que nos toma a todos”. Isso significa que o
Estado [teoricamente] vampiriza e não deixa as forças “emancipadoras” do
mercado agirem – como se o mercado, em algum lugar do mundo tivesse sido
emancipador por si próprio. Os países campeões do liberalismo como Inglaterra e
Estados Unidos têm uma estrutura de Estado extremamente forte, foram
protecionistas – e depois dizem a outros países serem o que eles mesmos nunca
foram. Isso deu esse charme – o “charminho crítico”, como eu chamo – a esse
tipo de ideia como o patrimonialismo,
que muitas vezes a esquerda comprou.
O segundo conceito
chave, também inventado na Usp, foi o populismo, que torna suspeito e
criminaliza tudo aquilo que vem das classes populares – inclusive qualquer
liderança associada a elas, que são também estigmatizadas e suspeitas de
estarem manipulando a tolice “inata” dessas classes. Eu estudei por décadas os
muito pobres e eles são muito mais inteligentes do que a classe média. Eles
veem a política como o jogo dos ricos em que todo mundo rouba enquanto a classe
média se deixa engambelar por esse tipo de coisa. A classe média foi montada
para ser idiotizada, é uma espécie de capataz da elite entre nós.
Na história do pensamento social
brasileiro nenhum intelectual chegou perto de romper com essas duas ideias, na
sua opinião?
Florestan Fernandes saiu
um pouco disso porque estudou dilemas e conflitos de classe; Celso Furtado foi
outro genial que percebeu coisas importantes que não têm nada a ver com esses
esquemas. Mas esses caras não reconstruíram a história do Brasil como um todo.
Foi essa a ambição que eu tive nesse livro porque eu percebi que, para atacar
esse negócio e dar nele um nocaute, é
preciso fazer o que eles [a elite] fizeram: explicar o Brasil desde o ano zero.
O que foi, como foi, por que somos hoje o que somos e o que isso implica para o
nosso futuro. Eu tentei fazer o que esses caras não fizeram, apesar de
termos tido críticos que discutiram aspectos parciais de modo extremamente
importante. Mas se não reconstruirmos
o todo, as lacunas do que construímos apenas parcialmente serão invadidas pela
teoria dominante, daí Florestan usar o patrimonialismo e essa bobagem toda.
Esse pessoal diz que nosso berço é Portugal e que de lá vem a
nossa corrupção – uma coisa que me dá raiva de tão frágil, já que corrupção
é um conceito moderno que implica a noção de soberania popular que é coisa de
200 anos. O nosso berço é a escravidão,
que não existia em Portugal a não ser para os muito ricos. Não era
fundante, era marginal, nunca foi mais de 5%, enquanto nós fomos montados nela.
Essa teoria sobre o Brasil, que se põe como científica, no fundo não vale um
centavo furado. É montada a partir de ilusões do senso comum, como se a
tradição cultural fosse transmitida pelo sangue. São instituições concretas que nos moldam, é a forma da família, da
escola que faz com que sejamos o que somos.
No livro você comenta que um dos
principais problemas do Brasil é que aqui não houve nenhum tipo de reflexão
acerca da escravidão. Quais são os efeitos práticos disso na sociedade
brasileira, hoje?
Literalmente tudo.
Primeiro há a naturalização da miséria e do sofrimento alheio. Todas as
sociedades já foram um dia escravocratas, apenas a Europa, no Ocidente, quebrou
com a herança escravista do mundo antigo. Isso significa que embora a pessoa
seja socialmente inferior a você, ela não será tratada como uma coisa, mas como
um ser humano. E com as lutas sociais por igualdade, são produzidos processos
coletivos de aprendizado na qual a dor e o sofrimento do outro podem ser
revividos em cada um. Nós, por outro lado, mantivemos essa subhumanidade. Nós
não nos importamos com a dor e
com o sofrimento dos pobres, as evidências empíricas são claríssimas como a luz
do sol, inegáveis para qualquer pessoa de boa vontade. A polícia mata pobres
indiscriminadamente – e faz isso porque a classe média e a elite aplaudem.
Houve recentemente essa coisa completamente absurda e bárbara das matanças nos
presídios, e a classe média aplaudiu. São provas de que temos, como sociedade,
ódio aos pobres. Isso veio da escravidão, em que havia uma distinção muito
clara entre quem
é gente e quem não é. Por isso, não nos importamos com o tipo de escola e de
hospital que essa classe vai ter, por exemplo, o que é uma enorme burrice
porque estamos criando inimigos, ressentimento. A Alemanha fez um esforço
extraordinário para incorporar os 17 milhões que viviam na Alemanha Oriental,
tornando seu mercado mais forte, mas aqui a gente simplesmente joga no lixo
esse tipo de coisa porque nunca criticamos a nossa herança escravocrata, porque
acreditamos nessa baboseira de herança portuguesa da corrupção. Raymundo Faoro
tratava a existência de senhores de escravos como algo banal, quando na verdade
o senhor de escravo deve estar no centro [da análise], já que todas as outras
instituições vão se montar a partir daí. É
uma continuidade absurda de 500 anos e nós somos cegos a isso.
Como essa continuidade aparece?
A
família dos muito pobres repete há 500 anos a família dos escravos e eles ainda
fazem o mesmo tipo de serviço que faziam antes, são escravos domésticos.
Fazem parte de famílias desestruturadas, uma vez que na escravidão não se
estimulava que o escravo tivesse família porque era preciso humilhá-lo,
abatê-lo. Exatamente como acontece hoje. A escravidão só prospera com o ódio ao
escravo e o Brasil de hoje é marcado por uma coisa central que só um cego não
vê, o ódio ao pobre. A humilhação do
pobre. O PT caiu não por causa da corrupção – que pode ter existido, é bom ver
as provas -, mas porque tocou no grande pecado de ter diminuído um pouquinho a
distância entre as classes. A distância desses 20% para os 80% é a pedra de
toque para esse acordo de classes absurdo no Brasil.
O único país que se
assemelha a nós no planeta é a África do Sul. Vivemos um apartheid aqui.
Governos de esquerda caem, acontecem golpes de Estado toda vez que tentam
diminuir essa distância entre as classes. Com isso você constrói dois planetas
dentro de um mesmo país, é isso o que temos hoje. Como a classe média não pode transformar esse seu ódio ao pobre em
mensagem política – porque isso seria canalhice e temos essa influência cristã
-, ela utiliza o pretexto da corrupção já dado pelos nossos intelectuais no tema
do patrimonialismo. Todas as elites estudaram em todas as universidades
essa mesma bobagem, todo jornal repetiu e repete em pílulas essa mesma
imbecilidade, fazendo com que as pessoas internalizem isso como uma verdade
absoluta.
Você afirma no livro que
a crise atual do Brasil é “também e principalmente uma crise de ideias”.
Partindo disso, quanto dessa crise a gente pode colocar na conta da própria
esquerda, já que ela nunca se mobilizou para produzir outra interpretação do
Brasil?
Ela nunca se mobilizou, isso é uma fraqueza e eu acho que temos
que mudar isso. Eu decidi transformar a minha vida nisso, por exemplo. Tem que
começar em algum momento. Eu tive sorte porque morei muito tempo fora do Brasil
e de algum modo peguei um olhar externo. Tem um grande filósofo que diz que o
que propicia o conhecimento é o fato de você conhecer aquele lugar, mas
estranhá-lo, ou todas as coisas viram naturais. E se tudo é natural você não interroga, não há dúvida.
Um estudo recente do Instituto Fórum
Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha mostra que, numa
escala de 0 a 10, a sociedade brasileira chega num índice de 8,1 na predileção
por posições autoritárias, principalmente entre jovens de 16 a 24 anos. Como
interpreta esse dado?
É de fácil explicação. A
partir de 1980 há um partido que nasce de baixo para cima. Nunca havia existido isso entre nós, um partido que
congrega trabalhadores rurais e urbanos – eu tenho muitas críticas ao PT, mas é
inegável que ele foi uma inflexão importante nessa história da escravidão. E
ele passa a representar uma demanda por igualdade nessa sociedade perversamente
desigual. Quando você afirma que esse partido é uma organização criminosa –
usando no fundo aquela ideia do populismo, de que tudo o que vem das classes
populares é estigmatizado – você está afirmando que a igualdade não é um fim,
mas um mero meio, uma estratégia de assalto ao Estado. Ora, para onde vai a raiva justa dos 80% dos excluídos se ela não pode
ser expressa de modo político e racional? Vai ser expressa de modo
pré-político, ou seja, violência pura. A Globo e a Lava Jato criaram Jair
Bolsonaro, só o cego ou o mal intencionado não vê. Esse namoro com o
autoritarismo tem a ver com o ataque midiático, esse conluio entre Rede Globo e
Lava Jato, e eu espero que esse pessoal pague por isso um dia.
No limite, essa
chave de leitura inaugurada por Sérgio Buarque serve para justificar golpes de
Estado e a Lava Jato, por exemplo?
Sim, a Lava Jato não tem nada a ver com acabar com a
roubalheira. Até porque a roubalheira aumentou, isso é visível agora que temos no governo uma turma da pesada.
É claro que a corrupção dos políticos existe, mas é uma gota no oceano. Esses caras são meros lacaios do mercado,
os office-boy, é o que o nosso presidente é. Se você disser que o sistema
inteiro é corrupto e que ele foi montado assim para que o mercado pudesse
comprá-lo, aí você estaria esclarecendo alguma coisa, mas quando se diz que
apenas um partido, aquele das classes populares, rouba, isso é uma mentira e um
crime.
Vê saídas para essa tendência
autoritária observada na sociedade brasileira?
Não tem nenhum outro
modo, os seres humanos precisam ter ideias, sem ideias não dá para ir a lugar algum. É claro que isso tudo pode
ficar ainda pior, a gente pode chegar a formas fascistas, mas o que a elite quer é dinheiro, se for por
uma ditadura militar, se for matando gente, não tem nenhuma importância.
Fato é que nesse instante de crise estamos com as vísceras à mostra e isso é
uma oportunidade de vermos a podridão desse esquema que foi montado por essa
elite usando e imbecilizando não só a classe média, e retirando a possibilidade
de levarmos a vida de modo reflexivo. O
que esse pessoal nos tirou foi a possibilidade de aprendizado da sociedade
brasileira baseado na reflexão. E isso é impagável.
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