PARA
ENTENDER A REBELIÃO POPULAR NO EQUADOR
Luiz Fenelon
15/10/2019
No dia 1º de outubro fomos
surpreendidos com o início de um levantamento indígena e popular no Equador
contra medidas tomadas pelo Presidente Lenin Moreno em consequência do um
decreto 883 que retirava subsídios aos combustíveis no país, que vigoravam há
mais de 40 anos.
O Fotógrafo David Díaz Arcos estava no centro histórico de Quito
Este fato foi a gota d’água que
provocou o levantamento popular. Nós, cidadãos comuns que acompanhamos as
notícias pelas redes oficiais da grande mídia, ocasionalmente somos
surpreendidos por notícias de convulsões sociais, conflitos e golpes na América
Latina. É que a mídia dá mais notícias dos Estados Unidos, da Europa e de
outras regiões em guerra, do que sobre fatos significativos do cotidiano de
nossa América Latina, que pouco a pouco vão se acumulando até estourar em
conflitos. Somente vêm à tona notícias regionais quando os conflitos alcançam
dimensão de tragédias.
Os protestos começaram quando, no dia
1º de outubro, o governo de Lenin Moreno anunciou o decreto 883 acabando com os
subsídios aos combustíveis, provocando aumentos de preços generalizados.
Temendo as manifestações, no dia 3 o
Presidente decreta o estado de exceção em todo o país, reprime as manifestações
e no dia 6 foge para Guayaquil, centro da oligarquia conservadora.
Dia 7, Quito é tomada pelos indígenas
e populares, mas Moreno teima em resistir, manifestando que não dará um passo
atrás.
Finalmente, com o acirramento dos
conflitos e com a morte de 7 manifestantes, desaparecimento de mais de 83
pessoas (não há referências sobre o que aconteceu com elas) e centenas de
detidos, Lenin Moreno é levado a negociar com a CONAIE – Central Indígena,
revogando o decreto 883, o que acalma os ânimos, pelo momento.
No entanto há muito mais acontecendo
no Equador e são inúmeras as semelhanças com a onda conservadora e neoliberal
que se espalha pelo mundo.
As medidas tomadas por Moreno atendiam
um acordo estabelecido com o FMI (Fundo Monetário Internacional) para obter um
empréstimo de 10 bilhões de dólares.
O acordo não se justifica. Equador tem
superávit na balança de pagamentos, não há fuga de capitais, sua dívida externa
foi reduzida graças a uma renegociação promovida em 2009 por Correa e o país é
exportador de petróleo.
Apesar do País não necessitar pedir
socorro ao FMI, Moreno, que como primeiro ato ao ser eleito foi tomar um café
da manhã com o embaixador norte-americano, desde que assumiu o poder vem
tomando medidas para um ajuste neoliberal, agora justificado como condições
impostas pelo Fundo Monetário Internacional que exigiu uma contrarreforma
neoliberal radical que inclui:
Contrarreforma das leis trabalhistas e
um vasto programa de privatizações.
Privatização do maior banco do País.
Da Operadora nacional de
Telecomunicações.
Venda de hidroelétricas ao setor
privado.
Autonomia do Banco Central.
Proibição que os bancos equatorianos
financiem o setor público,
As consequências serão graves:
Enfraquecimento
da legislação trabalhista.
Redução
dos salários do setor público.
Demissão
de trabalhadores contratados temporariamente.
Harmonização
dos salários do setor público com o setor privado. (entenda-se, redução de
salários).
Redução de
custos de salários para o setor privado.
Diminuição
do Salário Mínimo.
Flexibilização
do mercado de trabalho, adaptando-o às novas condições sociais do mercado de
trabalho.
Facilitar e
diminuir os custos das demissões. Flexibilização da jornada de trabalho.
O período
de experiencia, passa de 3 meses para três anos nos novos contratos.
Eliminação
de reajuste automático de 35% para trabalhadores contratados de forma
permanente.
Um informe publicado em julho de 2019
por Marl Weisbrot e Andrés Arauz sobre o programa do FMI no Equador afirma que
o acordo de março levará o país “a uma redução de seu PIB per capita, maior
desemprego e instabilidade macroeconômica”.
O próprio
programa do projeto afirma que “Equador sofrerá uma recessão este ano e um
aumento do desemprego em cada um dos três primeiros anos do acordo”.
Além
destas medidas econômicas, Moreno está atuando de forma ditatorial, perseguindo
todos os integrantes do antigo Governo que são fiéis às propostas dos governos
de Rafael Correa, da Revolução Cidadã, que Moreno traiu.
Martins enumera as medidas que
caracterizaram o giro político de Moreno quando ele decide abandonar o projeto
que vinha sendo desenvolvido desde os Governos de Rafael Correa(2007 a 2017).
Expulsa Julian Assange da embaixada do
Equador em Londres.
Destitui e prende seu vice-presidente,
aliado de Correa, Jorge Glas, a quem acusas de corrupção.
Trata de deter Rafael Correa, que se
asila na Bélgica.
Retira o Equador da UNASUR.
Em outubro anuncia a saída do Equador
da organização dos países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Existem
analistas que afirmam inclusive que Moreno, mais do que um líder que traiu seu
povo, é um infiltrado. Ele foi vice-presidente durante 6 anos do governo
de Rafael Correa, mas nos últimos 4 anos foi funcionário da ONU, trabalhando
como promotor de programas para apoio a pessoas com deficiência. Com esta
atividade, viajou por todo o País e ganhou popularidade que o permitiu vencer
ao vice-presidente Jorge Glas na disputa para a indicação como candidato a
Presidente pelo partido da Revolução Cidadã. Na posterior detenção de Jorge
Glas, em processo fraudulento, ao estilo do que conhecemos no Brasil, Moreno
contou com o apoio de uma verdadeira campanha de lawfare, ou
seja, articulação de setores do judiciário e do MP que manejam operações
judiciais com interesse político.
Moreno
tenta justificar as manifestações como manobras de Maduro, presidente da
Venezuela e do Ex-Presidente Rafael Correa que se encontra no exílio.
Obviamente os indígenas e a população negam esta ingerência e os dois acusados
descartam as afirmações do Presidente.
Para
concluir, em reunião articulada com a CONAIE representando os indígenas o
Presidente Moreno revogou o decreto 883, mas não abriu mão de propor que uma
comissão elabore um novo decreto de medidas de política econômica, seguramente
na linha do modelo neoliberal. Sem dúvida é uma manobra destinada a ganhar
tempo e aproveitar a influência que ele ainda tem junto a CONAIE, que está
integrada por seus correligionários.
Tudo
indica que esta história não termina aqui e que terá fortes desdobramentos no
cenário latino americano e mesmo internacional.
Texto
elaborado a partir do noticiário da grande mídia e de texto recebido de amigos,
especificamente da entrevista Leonardo Attuch da TV 247 com Amauri Chamorro
e anotações de Gilberto Lopes retiradas do Expresso de Guayaquil e do texto de Antônio Martins de Outras Palavras.
CONAIE – Confederación de
Nacionalidades Indígenas do Equador.

Comentários
Postar um comentário