O DIVISOR DE ÁGUAS
Brasília 15/07/2020
Luiz Fenelon

No texto anterior, falei sobre O DESAFIO. Basicamente o desafio para uma geração que aprendeu com base em um processo cartesiano de causa efeito (no melhor dos casos) ou em um processo “carteriano”(o aluno aprendia a ficar sentado na carteira, literalmente aguentando, enquanto o professor vomitava números, datas e definições que nada significavam para ele).
Agora, esta geração de repente se vê mergulhada em um mundo onde o conhecimento se dá na prática, através do fazer, do ensaio e erro (desculpem-me os acadêmicos, cientistas, pedagogos e demais conhecedores, por minha abordagem simplista).
Hoje quero abordar o contexto em que se apresenta O DESAFIO sobre o qual falei. Estou plenamente convencido que a PANDEMIA de 2020 representa UM DIVISOR DE ÁGUAS, UM PONTO DE MUTAÇÃO, UM SALTO QUALITATIVO, UM MUDANÇA NA CURVA, ou como quisermos chamar, na forma de viver, relacionar-se, trabalhar, produzir etc., etc... da sociedade atual.
Talvez a mudança que está ocorrendo seja equivalente ou mais profunda que a dos anos 90s, com a chegada da GLOBALIZAÇÃO, o FIM DA GUERRA FRIA, a QUEDA DO MURO DE BERLIM, o fim da UNIÃO SOVIÊTICA, a formação dos BLOCOS ECONÔMICOS, etc. Tudo indica que as modificações atuais serão mais radicais e afetarão ainda mais os destinos das pessoas e a continuidade da vida na terra. Não que essas mudanças não venham se ocorrendo há anos. Elas vêm se acumulando progressivamente e de forma acelerada desde a 2ª guerra. Agora chegam ao “pico da curva” e permitem vislumbrar os novos caminhos que podem ser seguidos. Este é o DESAFIO GLOBAL que está sendo colocado para a humanidade.
Caminhos a seguir:
Por um lado, temos a tendência dominante de seguir os rumos atuais, que significam o uso das novas tecnologias digitais, da forma de produzir e de comunicação, para seguir crescendo, tratando de consolidar o modelo neoliberal. Não faltam exemplos de defensores desta opção, caracterizadas atualmente pelo radicalismo autoritário.
Esta opção levará a maior concentração de riqueza, à expansão de miséria e crescimento da população sobrante, à maior competição, destruição da natureza, a desastres ambientais e mais guerras.
A maneira conservadora de “controlar” estas consequências é aumentar o controle social sobre os pobres por meio de controle da imigração, redução a guetos, controle da natalidade, dominação ideológica através de seitas e, no melhor dos casos, da implantação de medidas paliativas de controle de danos sociais e ambientais restritas a necessidades básicas. A prazo mais curto que se pode esperar, a continuidade do modo atual de viver levará o planeta a crises ambientais mais desastrosas e à generalização de conflitos violentos. Falar dessa tendência no futuro, me parece otimismo ou ingenuidade pois ela já é uma realidade, representada por governantes autoritários eleitos por estratégias digitais.

Por outro lado, podemos aproveitar este momento para buscar nova forma de viver que evite as catástrofes anunciadas, tanto em termos ambientais, como sociais e econômicos. Várias alternativas e modelos de sociedade estão sendo idealizados, planejados e até colocados em prática experimentalmente.
A PANDEMIA já demonstrou a necessidade de uma intervenção consciente nos assuntos econômicos e sociais para viabilizar o funcionamento mínimo da sociedade. Até os países que defendem o modelo neoliberal extremo estão promovendo intervenção estatal para socorrer a economia e atender, mesmo que timidamente, as necessidades de consumo das populações, distribuindo dinheiro, sem contrapartida.
Aqui no Brasil, por exemplo, o governo, depois de anunciar a suspensão de contratos de trabalho e demissões em massa, voltou atrás parcialmente e instituiu uma “ajuda” financeira “renda mínima”, a quem necessitasse, em base a determinados critérios, ao mesmo tempo que anunciava uma ajuda inicial aos bancos, de 1 trilhão  e 200 bilhões de dólares. Não cabe aqui analisar como estes recursos seriam movimentados pelos bancos. Na prática é um benefício aos banqueiros. Estes recursos aumentarão a liquidez da economia, mas na medida que fiquem no sistema financeiro, pouco significarão para a população e empresas. O contrário acontece com os 600 reais mensais de ajuda à população. Estes recursos entrarão diretamente para a população necessitada (excetuando as fraudes) e incrementará o consumo de produtos básicos, atenuando o impacto da crise.
No pós PANDEMIA é de se esperar uma quebra geral do poder aquisitivo das populações que vivem de seu trabalho. O aumento do desemprego será inevitável. A instituição de uma renda mínima que garanta o direito de viver, que já está sendo adotada na PANDEMIA, em muitos países, terá uma continuidade, cumprindo o papel de garantir o consumo básico da população e atenuar as crises de demanda, inclusive atenuando a concentração extrema de riqueza que se vive hoje em dia.
Para ter uma ideia de como isto é possível, só com 1 trilhão e 500 bilhões que o Brasil tem em reservas de divisas no sistema financeiro internacional poderia ser instituída uma renda mínima de 600 reais para todos, eu disse para TODOS os brasileiros, durante um ano. O dinheiro dado aos bancos poderia ser disponibilizado para socorrer a população e seu efeito seria melhor. Pode-se dizer que é injusto que as pessoas não necessitadas recebessem esse recurso, mas isso poderia ser contornado através de aumento correspondente em impostos de renda que restituíssem ao estado os recursos recebidos acima de determinado nível de renda, o que seria facilmente controlado. Medidas simples assim, teriam um efeito dinamizador na economia. Teríamos uma injeção de recursos, particularmente no consumo de produtos básicos, de mais de 100 bilhões de reais mensais.
Aliado a essas medidas racionais e menos competitivas de funcionamento da economia, a crise atual também aponta no rumo de medidas adequadas de sustentabilidade ambiental com o intuito de promover maior harmonia entre o desenvolvimento econômico/social e a preservação e recuperação da natureza.
Para terminar nossas especulações, infelizmente as tendências predominantes, no Brasil e no mundo, ainda são de aprofundamento da economia neoliberal, competitiva, autoritária e excludente.
No entanto, são tantas as contradições geradas por ela, que a resistência e luta por uma nova forma de viver estará presente na pauta de luta em todo o mundo.
É preciso ter FÉ NA VIDA.   

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