COMO FALAR SEM SE COMPROMETER

Brasília, 01 de setembro de 2017
Luiz Fenelon


O que é vergonha alheia? Acho que é este o sentimento que me invadiu hoje pela manhã ao escutar Kennedy Alencar responder ao locutor da CBN, Roberto Nonato, ao ser perguntado sobre as declarações da Presidente Dilma avaliando um ano do Golpe.
Confesso que escutei a entrevista com grande expectativa em como ele se sairia, ao responder ao vivo à emissora porta-voz do golpe e grandemente responsável pela situação atual, pois o considero  um bom analista econômico e político,
Para minha surpresa, ele começou bem. Com franqueza e habilidade. Menciona que “a ex-presidente Dilma Roussef fez algumas críticas corretas”. Observem a palavra algumas que relativiza a afirmação. Ele segue, concordando com Dilma, que as elites econômicas são atrasadas e irresponsáveis. (Eu ficaria em dúvida de dizer que são só as econômicas.)
Chega a afirmar que as elites são mesmo irresponsáveis, resistem a pagar mais impostos e a elite do funcionalismo teima em seguir ganhando acima do teto (lembrem que o teto é mais do que suficiente - mais de 33 mil reais por mês – coisa que pouquíssimos brasileiros ganham). Quando falamos acima do teto, estamos falando de 50 mil, 100 mil ou até mais de 500 mil. Um escárnio para todos os brasileiros que vivem do trabalho.
Quem paga essa a conta? Você adivinhou, somos todos nós, principalmente os mais pobres.
No entanto, para ficar bem com a GLOBO que seguramente paga de forma generosa suas análises, Kennedy me decepcionou ao não garantir o mínimo de objetividade. Logo ele dá um giro de 180 graus em suas declarações e culpa a Dilma por tudo que aqui está. Que ela é responsável pelo retrocesso político.
Chega ao desplante de dizer que ela é culpada “por não ter tido capacidade política de permanecer no poder”.
Que vergonha... ele até poderia ter razão. Se Dilma tivesse intenção de resistir a todo custo, instaurasse estado de sítio, dissolvesse o congresso e intervisse no STF, talvez tivesse evitado o Golpe. Mas ela não optou por essa saída e nem teria força para tal na conjuntura que vivíamos.
E insiste, Dilma permitiu a elevação da taxa de juros e o aumento da inflação. Ele só se esquece que a mídia golpista, representando o interesse do setor financeiro, desde 2012, insistia diariamente no aumento das taxas de juros. Eles não se contentaram em nenhum momento com a elevação progressiva praticada, insistindo em cada vez mais, plenamente conscientes que estavam sabotando a economia.
Para completar o absurdo da posição de Kennedy, ele dá entender que passados um ano do “Golpe Parlamentar”, o STF ainda não se manifestou sobre a legalidade do mesmo, que é bastante questionada no meio jurídico.
Implicitamente, reconhece que o Golpe foi provocado pelo Aécio Neves em aliança com Eduardo Cunha “para dinamitar as medidas econômicas do governo. Houve o festival da “pauta bomba”.”
Apenas esqueceu de mencionar todos os outros atores e o papel protagonista realizado pelas organizações GLOBO e a mídia golpista. Afinal, seria pedir muito que ele pusesse todos os nomes aos bois.
Foi decepcionante e vergonhoso ouvir um profissional, admirável por sua capacidade intelectual, fazer tamanho esforço de adaptação de seu discurso para manter-se próximo da verdade e ao mesmo tempo agradar seu patrão.

Triste, mas compreensível.

Comentários

  1. Parabéns Fenelon! Seu blog tá bom demais. É de conteúdos assim que estamos precisando para alimentar o debate, nessa atual conjuntura política. Abraços. Glaucia

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  2. Me agradou muito o teu texto Fenelon. Kennedy Alencar não é confiável mesmo. Ele responde, e sempre respondeu, a seus patrões, os donos do capital financeiro...

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